Em meio a um mundo marcado pela aceleração, pelo excesso e pelo ruído, o cantor, compositor e multi-instrumentista Marcos Jobim apresenta o projeto “Singelinha”, uma obra que convida à contemplação e à escuta profunda. O álbum foi lançado oficialmente em 11 de setembro, dentro da programação do projeto Mistura Fina, com um show no Teatro Oficina Olga Reverbel – Multipalco Eva Sopher, em Porto Alegre.
Mais do que uma obra musical, “Singelinha” propõe um respiro estético e existencial e nasce como resposta à aceleração, ao excesso e à sobreposição de ruídos, propondo o silêncio e o amor como formas de resistência. “Na pressa de viver mais, corremos para a morte. Falta tempo para absorver cada experiência, falta silêncio para sentir”, resume Jobim, reforçando a ideia central do álbum: desacelerar para perceber.
A proposta estética tensiona o caos cotidiano, evidenciando o silêncio como elemento estruturante e contraponto essencial ao som. Entre harmonias refinadas, melodias fluídas e versos que falam de amor como força de resistência à brutalidade do mundo, Singelinha se constrói sobre três pilares temáticos: a contemplação das sensações, a eloquência do silêncio e o amor como forma de resistir.
O álbum reúne uma equipe de músicos talentosos que contribuem para a riqueza estética de “Singelinha”. A produção musical é assinada por Pablo Schinke, que também cuidou dos arranjos, tocou violoncelo e assumiu a mixagem. A masterização é de Marcos Abreu. Ao lado de Marcos Jobim, responsável pelas composições, voz e violão, o time inclui Ana Schmidt (violino), Ariane Rovesse (clarinete), Bruno Coelho (percussão), Edu Martins (contrabaixo), Sabryna Pinheiro (trombone), Wilthon Matos (tuba) e Walter Schinke (contrabaixo na faixa Singelinha (Camerata)). A cantora Betina Pegorini participa com sua voz na faixa Clarice. As gravações ocorreram no estúdio Bira.
Reconhecido pela originalidade e pela sutileza, Marcos Jobim é coautor do duo Cruz & Jobim, com o qual lançou o EP “Solidão” e o álbum “Desencontro”, trabalhos que se destacam pela busca de novos caminhos para a música brasileira sem perder a raiz da tradição. Em 2022, lançou do seu primeiro disco solo, “Ensaio Sobre A Vida E O Tempo”, com oito faixas, mesclando uma sonoridade contemporânea, progressiva, com pitadas de bossa nova e jazz. Em carreira solo, já lançou sete singles e o EP “Em Estúdio – Ao Vivo”, reafirmando sua versatilidade artística.
O surgimento de “Singelinha”
A peça instrumental “Singelinha” foi o ponto de partida para o álbum. Composta em 2023, nasceu do desejo do artista de alcançar uma síntese poética e sonora. “Eu buscava algo que tivesse um caráter sintético, que enunciasse informações mais profundas a partir de uma forma simples e objetiva”, explica Jobim.
No disco, a obra aparece em duas versões: uma para violão solo, tal como composta, e outra em arranjo para camerata, com violino, clarinete, trombone, violoncelo, tuba e contrabaixo. O arranjo foi revisado e editado por Pablo Schinke, também responsável pela produção musical e pela engenharia de som. “O Pablo foi fundamental para a construção da sonoridade do álbum, além de ter atuado como violoncelista. Ele tem um olhar muito apurado para a estética e trouxe um senso de equilíbrio e inovação para as músicas”, destaca Jobim.
Depois da gravação dessa peça, surgiu a ideia de expandir o projeto. “O processo foi tão inspirador que percebemos que poderíamos fazer algo maior”, conta o artista. Assim, foram reunidas composições que dialogavam estética e conceitualmente, formando um repertório com 13 faixas — dez canções e três instrumentais.
O trabalho seguiu para um longo período de pré-produção, com arranjos detalhados por Schinke, revisão de tonalidade e estrutura por Jobim e provocações criativas do músico Pedro Longes para a interpretação vocal. Entre abril e junho de 2025, ocorreram as gravações, majoritariamente no Estúdio Bira, com exceção da primeira sessão de contrabaixo no Estúdio Bem-te-vi. “Foram 16 sessões, cada uma trazendo uma nova camada para esse mosaico sonoro”, lembra Jobim.
Após a etapa de gravações, seguiu-se a mixagem, a cargo de Pablo Schinke, que trabalhou minuciosamente para preservar o caráter de cada música. “Ele sempre se preocupou em manter a essência das composições, mesmo nos momentos de maior experimentação”, completa.
A diversidade sonora de Singelinha
O álbum “Singelinha” se abre em múltiplas direções sonoras, atravessando a MPB, o folk, a world music e ecos do rock e da música de concerto, mas sempre com a delicadeza do arranjo e a força da poesia como guias. As canções transitam entre atmosferas íntimas e expansivas: do chamado à escuta interior em Silêncio, passando pelo convite à vivência plena de Eu Vou e pelo lirismo romântico de Um Sol Qual Luar, até o breve e enigmático lirismo de Amálgama. O tema que dá nome ao álbum aparece em duas versões — Singelinha (Camerata) e Singelinha (Violão Solo) — revelando a simplicidade da valsa tanto em sua forma camerística quanto em sua essência despojada, apenas voz interior e instrumento. Entre o sonho e a utopia, Um Novo Sol e Canção Sem Nome expandem as fronteiras da composição, explorando texturas e melodias que dispensam palavras.
A segunda parte do álbum mergulha em imagens literárias, amores súbitos e contemplações cósmicas. Clarice é uma MPB com elementos de folk e world music e remete à última entrevista de Clarice Lispector (à TV Cultura, em 1977), dotada de um caráter enigmático e melancólico, enquanto Um Rio Vadio encarna a intensidade das paixões repentinas. Em Cada Verso revisita a Bossa Nova com refinamento e malandragem, contrastando com o tom político e intimista de Uma Canção em Forma de Amor, em que o afeto se ergue como forma de resistência. Já Ser A Paz encerra o disco como uma promessa de harmonia, um respiro singelo que dissolve as fronteiras entre corpo, som e emoção. Assim, entre melodias densas e arranjos delicados, o álbum se afirma como um percurso de escuta e sensibilidade, em que cada faixa é um gesto único, mas todas se entrelaçam na busca por simplicidade e profundidade.
