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Música

Live Motel lança o disco Vibração, uma homenagem aos bailes blacks do Rio de Janeiro

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Live Motel, projeto do DJ Fabio Santanna, lança hoje (20) o disco Vibração, uma homenagem aos clássicos bailes black cariocas, sucessor dos álbuns Live Motel Vol.1 (2016) e Live Motel Vol.2 (2018). São 14 faixas que trazem a frequência das pistas de dança com muito groove e, diferente dos lançamentos anteriores, com letras em português, numa pegada que o artista chama de Brazilian Boogie. A data de lançamento foi escolhida especialmente por ser o dia da Consciência Negra. Ouça aqui.

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Produzido por Fabio no seu “Na Nave Estúdio”, durante o período de quarentena, a proposta de Vibração, além de resgatar várias referências do artista, é emanar boas energias em um momento bastante difícil pelo qual todo o mundo atravessa. “Vibração é um disco que me fez mergulhar na minha essência, na minha história e nos meus anseios como artista. Produzir, existir nesse período é necessário, mostrar que é vibrando na arte que somos resistência e emanamos luz. Sou um artista negro independente, compus, executei, arranjei e produzi, abracei todas as minhas limitações e botei o bloco na rua. Vibração é baile, energia, afinal não somos só tristeza e problemas, somos, também, beleza, exuberância, prazer e alegria”, ressalta. E completa: “Penso nos bailes também como importantes ferramentas culturais e sociais, pois é um lugar no qual o negro brilha, sai da página policial e vai para cadernos de cultura e comportamento“.

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A sonoridade do álbum se baseia em beats, synths, percussão e vocais que passeiam por diferentes ritmos, como o soul, funk, disco e house. Já nas influências estão artistas como Cassiano, Marcos Valle, Azymuth, Rita Lee, Banda Black Rio e Lincoln Olivetti: “São sons que eu ouvia na adolescência nos bailes do subúrbio e da zona sul do Rio”, lembra. A mixagem e masterização são assinadas pelo DJ Pedro Poyart, que também co-produziu o álbum. E como participação especial tem a cantora e compositora Pérola Kenia, na faixa Febre de Amor e o DJ e produtor João Pinaud em Vontade de Dançar. 

Faixa a faixa

No Calor do Amor abre o disco com uma frequência leve e solar: “minha intenção foi trazer aquela sensação da espuma fina do mar que molha os pés antes de dar o primeiro mergulho”, comenta. Quase um instrumental, synths e vocais criam uma atmosfera etérea, mas mantendo a pulsação: o verão está chegando no calor do amor. “A harmonia tem inspiração nas canções da minha eterna musa Rita Lee”, revela. 

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Segundo single a ser lançado, Bem de Leve é “aquela brisa morna e gostosa de verão que toca o rosto”. A música é uma homenagem de Fabio à sua parceira de vida e fala da beleza do encontro e da leveza do amor e vem embalada no que ele nomeia como “um synthpop gostoso inspirado em Rita Lee, Marina Lima e Lulu Santos”. 

Faixa que dá título ao disco, Vibração é “a chegada do sol, a pulsação, a energia que faz vibrar e que sintetiza toda a minha ideia para o disco. Marcos Valle, Lincoln Olivetti, Pepeu Gomes, segui os meus mestres com muita vontade para tentar criar essa narrativa solar e carioca numa pegada Brazilian Boogie. Synths, guitarras e vocais a serviço do groove”, conta. E a canção chega como o destaque do álbum com videoclipe inédito (assista aqui), dirigido por Fabio, que traz a participação de Jonathan Neguebites, um jovem negro da periferia da capital carioca, que faz parte do coletivo funkeiro Heavy Baile e também do grupo Os Imperadores da Dança, além de ser professor de dança especialista no “passinho”. “Jonathan foi mais que perfeito, alto astral, cheio de malemolência e swing dos bailes cariocas, o cara arrasou, se jogou bonito, dançou, quebrou, vibrou: era tudo o que tinha na minha mente e muito mais! Mesclamos a minha imagem na dele, por vezes sendo uma só persona, por outras, enquanto cantava, Jonathan encarnava uma espécie de espírito surreal da dança, do movimento, captando a energia que vem da música. Abusamos de efeitos, das cores e de movimentos, trazendo uma estética afro futurista e urbana ao mesmo tempo”, conta.

A quarta faixa, Ipanema, é o que Fabio chama de “pré baile”: “uma homenagem aos meus tempos de rolê nos bailes, mas antes rolava aquela praia pra alinhar. Um groove gostoso e que me leva de volta àquele cenário de Ipanema nos anos 80, onde me perdia entre a zona sul e o subúrbio carioca, a trilha era Cassiano, Banda Black Rio, Tim Maia, Hyldon e Bebeto”, lembra.

As Flores Vão Chegar foi o primeiro single lançado, que abriu os caminhos para o álbum. “A black music brazuca foi trilha sonora da minha vida e seguramente arquitetou toda a minha base artística. Canções como Primavera (Tim Maia) nunca saíram da minha cabeça, aquela soul music cantada em português”. A canção foi lançada junto com o início da primavera: “queria cantar sobre a esperança que estava presa no peito, feita bem no início da pandemia, onde dizia a mim mesmo ‘sobre tudo o amor há de vencer’”. 

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A sexta música do álbum é Fixação e traz a atmosfera dos bailes: “aquele groove pra fazer dançar, bass synth e beats num balanço gostoso. Fixação canta sobre o amor que mexe com a gente e é pura curtição”. Na sequência vem Febre de amor, que foi o último single antes do lançamento do disco: “com essa faixa eu marco o território da negritude do disco, como um carimbo mesmo, já que esse disco é feito por uma artista negro oriundo dos bailes cariocas. Tem aquela pegada soul veneno dos bailes, bpm mais lento, mas pulsante e cheio de malícia”. A canção conta ainda com a participação pra lá de especial de Pérola Kenia, cantora negra da periferia do Rio, também compositora e MC. 

Se sua Estrela não Brilha vem como um recado bem direto: “é uma provocação para aquela galera que fica na surdina, torcendo contra. Nada melhor do que um groove afro e cheio de mandinga pra espantar essa vibe”. “Se sua estrela não brilha não venha a minha apagar”, canta Fabio com um certo humor e sarcasmo, mandando o papo reto: “se não torce não atrapalha”. Mas no final todo mundo acaba dançando junto, “vencemos na categoria e no balanço”, comenta.  

Balanço Zona Sul é uma homenagem à vida de Fabio pelos bailes que foram a sua maior escola: “foi onde que entendi a pulsação, o corpo em movimento, o que mexia com as pessoas e comigo. Hoje sou músico e produtor, mas tudo começou nos primeiros passinhos dos bailes. Quer entender groove? Vá num baile black”.  

Barbarela Negra é uma faixa que exalta o afrofuturismo: “queria cantar e exaltar a beleza negra, inspirado em Jorge Ben Jor, e fiz um paralelo do filme Barbarella com Jane Fonda com o universo black do afrofuturismo, com o cosmos e com a beleza da mulher negra. Na minha música, Barbarela é uma negra linda, cósmica, cheia de atitude e força. Ainda deu pra fazer uma menção a Black is Beautiful, do Marcos Valle”. 

Luz Neon é o que Fabio chama de Black Brazilian Boogie: “as influências vêm da pista de dança, da minha experiência como DJ e músico – tudo se mistura para criar esse groove synthfunk e, novamente, seguindo os mandamentos blacks dos meus mestres Lincoln Olivetti, Cassiano, Marcos Valle”.  

Referência é tudo no processo de criação de Fabio, seja na busca de uma estética ou de uma sonoridade. E isso pode ser conferido em Corpos Ardentes (na linha do equador) faixa na qual ele resgata os sons da Gang 90, “era uma banda que tinha vários hits que nunca saíram da minha cabeça, como Nosso Louco Amor, Perdidos na Selva, Pelo Telefone, e que trazia um som moderno com uma narrativa quente dos trópicos, uma linguagem que sempre me atraiu, Julio Barroso jornalista e líder da banda era um mestre nisso”, recorda. E outra referência marcante nessa canção é Guilherme Arantes, seus discos tocaram muito na vitrola de Fabio.

Prestes a fechar o disco vem Xangô, faixa na qual predomina a negritude e as batidas com grooves afros, que transitam por todo o álbum. “Criei um beat afrofunk, pulsando no bass e cantando nos tambores. Falo de ancestralidade, religião de matriz negra, e canto em homenagem à Xangô. Lembro com saudade dos pontos e cânticos que ouvia bastante nas idas ao terreiro da minha avó. Xangô é o orixá da justiça e 2020 é regido por ele, nada mais atual que cantar o nosso anseio por justiça nesse momento. Xangô abre o caminho com seu machado! Kâo Kabicilê!”, vibra Fabio.   

Vontade de Dançar foi o primeiro single do disco lançado logo no início da pandemia e fecha Vibração. “A dança para mim sempre transcendeu o físico, também é espiritual. E a criação desse groove funcionou como uma maneira para poder aliviar o isolamento físico, a distância das pessoas, o medo. Vontade de dançar me ajudou a lidar com tudo isso”. Na faixa tem a participação do DJ e produtor João Pinaud, que gravou um baixo pulsante e hipnótico, “é pista para exorcizar geral”.

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Jornalista, 23 anos, produtor de conteúdo, trabalho com marketing digital na indústria fonográfica. E-mail: [email protected]

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