Atravessado por diferentes experiências culturais brasileiras, Maurilio chega ao seu primeiro álbum solo depois de mais de uma década dedicadas a outros projetos de canção popular, sonoridades regionais e rock alternativo No dia 5 de junho, o artista apresenta “Tristeza na Beira do Mar”, primeira faixa revelada de Flecha do Avesso.
Composta em parceria com Rael Valinhas e Livia Nery, “Tristeza na Beira do Mar” sintetiza as diversas referências de Maurilio. Filho de nordestinos, criado no interior de São Paulo e marcado por períodos no Amapá e no Rio Grande do Sul, ele construiu uma trajetória em que, assim como no Brasil, paisagens e culturas convivem. “Sou filho de um trombonista do exército. Fui criado no Sudeste, mas morei no extremo norte do país e também no extremo sul. Comecei a me interessar por música ouvindo os CDs que tinha em casa, então os primeiros artistas de que gostei foram Blitz, Legião Urbana e Phil Collins. Vendo a MTV, passei a gostar de Kiss e virei um ‘rocker’. Uma mistureba danada”, conta o artista.
Filho de uma geração que cresceu antes da internet, Maurilio teve sua formação musical marcada pela escassez de acesso à informação e aos discos que despertavam sua curiosidade. Entre revistas especializadas, fitas K7 gravadas entre amigos, programas de rádio e horas passadas observando capas de álbuns em lojas de discos, construiu uma relação intensa com a descoberta musical. Essa busca constante por referências e sonoridades ajudou a moldar sua identidade artística, alimentando uma curiosidade que permanece presente em seu trabalho até hoje e que se reflete na amplitude de influências que atravessam Flecha do Avesso.
Embora tenha atuado durante muitos anos como guitarrista de bandas de rock e blues, suas primeiras composições surgiram sob influência de compositores como Bob Dylan e Raul Seixas, especialmente pela relação entre voz, narrativa e interpretação das palavras. Com o passar do tempo, foi se aproximando cada vez mais da música brasileira e incorporando novas sonoridades ao seu repertório. Assim, desenvolveu uma linguagem própria que mistura de tudo um pouco. “Ouço absolutamente de tudo e me deixo influenciar por tudo. Posso estar ouvindo um disco do Deep Purple e em seguida ir ouvir samba enredo ou um disco de forró, sem nenhuma dificuldade. Gosto de consumir e de gostar das coisas. E amo adentrar novos universos dos quais sempre fui estrangeiro.”, confessa Maurilio.
Essa linguagem autoral permite que Flecha do Avesso beba de elementos de samba-rock, ijexá, coco, música nordestina e canção popular brasileira. O álbum dialoga afetivamente com artistas como Gilberto Gil, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Novos Baianos, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, além de nomes da cena baiana contemporânea como BaianaSystem e Josyara, sem a intenção de recriar movimentos específicos, mas de construir uma música popular, orgânica e aberta à mistura.
A brasilidade que é marca dessas influências se materializa sobretudo no uso de tambores, pandeiros e diferentes camadas percussivas, que substituem completamente a bateria tradicional. Essa escolha é a marca registrada de “Tristeza na Beira do Mar”, faixa que nasceu a partir de um candombe apresentado por Rael Valinhas e acabou se transformando em um ijexá, aproximando a composição de referências ligadas à axé music e ao pop baiano. Apesar da atmosfera leve, a música evita idealizações. Em vez de tratar a “beira do mar” como fuga paradisíaca, Maurilio utiliza a imagem como símbolo de respiro e suspensão diante das pressões cotidianas. “Quando o dia é bom não se vê / quando o tempo flui ninguém diz pra ele passar”, canta em um dos versos da faixa, refletindo sobre a percepção do tempo, o desgaste emocional e a tentativa de reorganização diante do mal-estar contemporâneo.
“Tristeza na Beira do Mar” é a primeira amostra de Flecha do Avesso, álbum produzido por Maurilio e Guilherme Ceron A faixa apresenta apenas uma das muitas paisagens sonoras que compõem o novo trabalho, abrindo caminho para um disco que seguirá explorando encontros entre diferentes geografias, ritmos e formas de escutar o Brasil.
