“Sono de Pedra”: Clássico do curitibano Alexandre França ganha reinterpretação intimista na voz de Julia Zolí

Julia Zolí
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O que acontece quando o peso de uma desilusão amorosa no ambiente urbano se transforma em uma delicada valsa de apartamento? É o que propõe o single “Sono de Pedra”, nova gravação da densa faixa originalmente lançada pelo cantor e compositor Alexandre França em seu elogiado álbum Música de Apartamento (2009). Desta vez, a composição ganha a interpretação singular e acolhedora da cantora Julia Zolí.



Se na gravação original de 2009 a faixa carregava a assinatura irônica e boêmia de Alexandre — mimetizando uma espécie de Lupicínio Rodrigues contemporâneo que dissecava as angústias da classe média —, a nova versão ganha contornos meditativos e flerta com uma estética européia clássica e cinematográfica.
A atmosfera é sustentada por uma instrumentação inteiramente orgânica e econômica: o violão dedilhado do próprio compositor, a voz suave de Julia e as texturas profundas do violoncelo de Romildo Weingartner. A produção musical, mixagem e masterização levam a assinatura refinada do maestro e produtor Gilson Fukushima.
Composta entre 2003 e 2004, no período em que Alexandre saía da faculdade e enfrentava as primeiras e inevitáveis rasteiras sentimentais da vida adulta, “Sono de Pedra” abre com um verso cortante e metalinguístico:

“Eu preciso de uma música que não pare de tocar na minha cabeça e me entristeça quando eu mandar”.



“Essa frase fala justamente sobre a nossa tentativa frustrada de controlar emoções que nos tomam de assalto”, explica Alexandre França. “No momento em que o indivíduo pede para uma música tocar na cabeça dele sem parar, ele tenta expurgar a desilusão através de um tipo de controle pessoal. O fato de ser uma valsa reforça um tom levemente decadente — já que a valsa era uma dança aristocrática e aqui ela se torna a trilha sonora de uma casa estalando no meio do silêncio da solidão urbana. Mas é um humor ácido que não perde a ternura”, pontua o compositor, que cita o clima de O Grande Circo Místico (Chico Buarque e Edu Lobo), a sutileza melancólica de Nick Drake e o lirismo irônico de Sérgio Sampaio e Caetano Veloso como pilares de sua formação.

Para Julia Zolí (nome artístico adotado por Júlia de Carvalho Pereira em homenagem às suas avós, Izolde e Vília), dar voz a este clássico do cancioneiro independente foi uma experiência marcante. Vinda do circuito do indie rock paranaense (onde foi vocalista da banda Cinese, na Lapa) e do pop internacional (atual integrante da banda Scoopers, em Curitiba), a cantora e professora de canto encontrou na MPB um terreno fértil para sua versatilidade interpretativa.
“A produção do Gilson Fukushima apostou em um arranjo onde o violão do Alexandre serve de porto seguro para a voz, enquanto o violoncelo do Romildo expande a dimensão dramática. É um som acústico que pede mais de uma escuta, feito para preencher o silêncio e dialogar com quem já viveu as intensidades e os altos e baixos de um grande amor”, define Julia.

O resultado final de “Sono de Pedra” é um abraço maduro na dor de cotovelo: uma canção que escapa da mera “sofrência” comercial para se firmar como um jogo poético elegante, atemporal e profundamente necessário para os dias de hoje.

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Publicado por Gustavo Neves

Gustavo Neves, jornalista e especialista em marketing, produção de conteúdo e definição de linha editorial, possui vasta experiência na realização de entrevistas, organização de coberturas de eventos, gerenciamento de redes sociais e coordenação da equipe. E-mail: [email protected]