O músico e compositor gaúcho Pablo Lanzoni apresenta Aviso de não lugar, álbum que costura vivências, observações urbanas, afetos e ancestralidades em oito faixas autorais. O disco não parte de um conceito único, mas se organiza como um conjunto de pequenos mundos — canções que funcionam como universos completos dentro de um mesmo cosmos. “Muitos temas se relacionam e retratam meus interesses – mesmo que desinteressados – num pequeno espaço de tempo”, conta o artista.
Apresentado pelos singles Aviso de não lugar, Porto e Coca_Cola, o trabalho é resultado da reunião de composições recentes e outras criadas especialmente para o projeto com produção assinada pelo próprio artista ao lado de Leo Bracht. “Aviso de não lugar, embora não tenha sido a canção germinal do projeto, foi aquela que fundou as estacas mais sólidas desta nova edificação e serviu como norte em muitos momentos: sonoro, poético e interpretativo”, afirma Lanzoni.
Gravado com um time expressivo de artistas da cena contemporânea, o álbum conta com participações de Ana Karina Sebastião, LEME, Beatriz Lima, Stephanie Soeiro, Paola Kirst, Richard Serraria, Tuti Rodrigues, Dessa Ferreira e Pingo Borel.
As faixas transitam entre referências que vão de Lenine, Jorge Drexler e Dany López a nomes da cena local como Paola Kirst, Alexandre Vieira e Mário Falcão — com quem Lanzoni colaborou recentemente. O disco também guarda ecos de artistas como Zeca Baleiro e Bebeto Alves.
Faixa a faixa por Pablo Lanzoni
Aviso de não lugar é uma parceria com Richard Serraria, construída a partir da imagem bucólica e poética de soldados que surgem no quintal. A música traz violões e um groove que remetem ao indie folk, com o canto se aproximando da voz falada, quase uma narrativa. No refrão, a asa delta plana pelo céu, mirando um bico de mar — uma utopia de quintais que brinca com dados.
Meu anti-herói é uma parceria com Juliano Guerra. A música foi apresentada a Juliano com a ideia inicial “meu anti-herói”. A potência do texto criou a necessidade de um arranjo energético e visceral, com guitarras, baixo e bateria mais densos. No final, o som das vozes funciona como a coroação da trajetória do herói.
Bataclã é outra parceria com Richard Serraria, desta vez baseada no livro de poemas Sopaporiki. A canção usa a linguagem-invenção presente na obra, recombinando palavras do poema ‘Sopapo Bará’ para criar uma milonga, gênero musical com raízes africanas e europeias do sul da América do Sul. A faixa tem forte presença rítmica, com Tuti Rodrigues nas percussões (batá, cowbell, djambê e sopapo), Pingo Borel no Ilú e Leo Bracht no gyil e no beat, além de participação vocal.
Porto traz guitarras energéticas e um violão que evoca a milonga, retratando Porto Alegre — mas que pode ser espelho de outras metrópoles brasileiras. A música transforma trânsito e arranha-céus em paisagem sensível e palco de encontros, com o refrão como um grito coletivo: “Salve a cidade! minha gente vive aí”. Foi a última música composta para o disco, inspirada na notícia de uma disputa judicial sobre a construção de um prédio ao lado de um museu importante da cidade, canalizando a tensão entre memória, paisagem e especulação urbana.
Coca_Cola é uma canção dedicada ao olhar e ao que ele pode despertar. É a faixa mais pop do projeto e brinca com cenas improváveis do cotidiano.
Bebo a beijo é uma parceria com Richard Serraria. A letra joga com oposições e repetições, girando em torno da recusa do “meio” — meio beijo, meio copo, meia verdade — em favor da experiência inteira. A voz de Stephanie Soeiro, em diálogo com Pablo Lanzoni, traz intimidade ao texto poético.
Substância é uma parceria com LEME (Guilherme Becker). A música aborda o amor em diferentes aspectos, para quem quer se encontrar, se perder ou resistir. A letra traz uma reflexão sobre entrega e esperança.
Correnteza rio abaixo é uma parceria com Richard Serraria. A música usa a fluidez do rio como metáfora para afeto, tempo e deslocamento. A letra traz imagens de perda, espera e reencontro, com referências afetivas e geográficas, como Montevidéu. O arranjo acompanha o movimento ondulante do texto, alternando passagens mais contidas e outras mais abertas.
SOBRE PABLO LANZONI
Pablo Lanzoni é compositor, professor e regente. Seu álbum de estreia, POA_MVD (2016), foi eleito o Melhor Álbum de MPB no Prêmio Açorianos de Música 2016/17 e citado dentre os dez lançamentos nacionais daquele ano pelo Jornal Zero Hora. Em sua discografia também estão valentia tempo voz (2020), que contou com as participações de Zeca Baleiro e Richard Serraria; e Delírio Geral (2022), em parceria com o violonista Thiago Colombo – disco com participações de Bianca Gismonti, Vitor Ramil, Bloco da Laje, Valéria Barcellos, Celso Loureiro Chaves, Bebe Kramer, Guto Wirtti e Leandro Maia. Lançou ainda os singles Do chão (2021), com Paola Kirst; Miragem (2021) e Pra compensar tua ausência (2024), com Mário Falcão. Além disso, atua como professor de Música do IFRS – Campus Porto Alegre.
