Diretamente de Lethbridge, Alberta, o Midnight Channel não está apenas tocando jazz — está reimaginando-o, despedaçando-o e deixando que os fragmentos orbitem pelo tempo, pela memória e pelo amor. Seu novo álbum, Alien Love Songs, é um vasto e pulsante choque de linhas de metais explosivas, melodias meditativas e toda a bagunça emocional de ser humano.
Com a monstruosa e enigmática faixa de destaque “Shelly”, o disco explora o amor romântico, platônico, espiritual e próprio — bem como a dolorosa ausência dele. É tão inspirado por animes e piadas internas quanto por Don Cherry, Makaya McCraven ou a era elétrica de Miles Davis. O resultado? Uma visão caótica, transcendental e profundamente pessoal de um álbum de jazz.
Gravado ao vivo em uma igreja vazia e depois refinado no Studio One da Universidade de Lethbridge, o disco é um documento sonoro cru, mas emocionalmente rico, da evolução coletiva da banda.
“Temos a sorte de contar com uma comunidade de amigos e produtores talentosos que nos ajudaram a dar vida a isso”, diz o baterista Drake McCheyne. “Tudo pareceu colaborativo, enraizado e real.”
Enquanto o álbum percorre temas como desejo, luto, alegria e desconexão, nunca perde seu senso de travessura ou brincadeira. “Quando começamos a tocar músicas autorais, sempre brincávamos antes de entrar: ‘Prontos para assustá-los?’”, conta o saxofonista tenor Stuart Dalby. “Essa atitude nos ajudou a permanecer fiéis ao que queremos da composição e da performance. Lembra-nos de focar no que amamos, não no que os outros podem pensar.”
“Shelly” surgiu de uma improvisação com pedal harmonizador no sax, que evoluiu para um hino de freak-jazz mutante — ancorado por percussão tribal, sopros uivantes e uma inspiração improvável: uma criatura gigante semelhante a um caranguejo do livro The Way of Kings, de Brandon Sanderson.
“Essa faixa meio que se tornou a trilha sonora do primeiro encontro com a criatura, onde três personagens do tipo super-soldado a enfrentam de forma impressionante”, explica o saxofonista Brandon deGorter. “Os ataques no refrão acabam virando, na minha cabeça, quadros congelados característicos de painéis de quadrinhos.”
O baterista Drake McCheyne complementa: “Essa música sempre voltava — era uma daquelas jams às quais retornávamos, mas que nunca conseguíamos finalizar. Brando e Chris (teclados) acabaram colaborando nela, e foi aí que finalmente tudo se encaixou. Agora ela soa inteira.”
Do solo de sax com respiração circular à densidade sintética dos sintetizadores, “Shelly” combina texturas naturais e artificiais com fluidez. Ela também apresenta o ngoni — uma harpa tradicional da África Ocidental — tocada ao vivo e no estúdio pelo multi-instrumentista Matt Erdmann. “O som se encaixa perfeitamente na pegada rítmica tribal da faixa”, comenta McCheyne.
Alien Love Songs está repleto de reviravoltas: ruídos com delay, passagens de samba, valsas suaves, camadas de percussão, samples-surpresa e coração. Quando o disco termina com “Celebration”, um hino espiritual que funde caos e alegria, fica claro o verdadeiro propósito do Midnight Channel: sobrevivência através do som. Amor através do ruído. A estranheza como força vital.
