eSports exigem preparo como os de atletas de alto rendimento Por Dr Rizzieri Gomes

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Dr Rizzieri Gomes

Há uma polêmica no ar após a fala da atual ministra dos esportes sobre as competições virtuais. Mais do que entrar no mérito se tais modalidades podem ou não ser consideradas esportes (o que entra tanto no campo da semântica quanto no entendimento de entidades oficiais que têm seus critérios técnicos), quero aproveitar meu papel enquanto médico e agente promotor de saúde em todo os seus aspectos para pegar esse gancho e falar sobre a atividade em si. Afinal, como qualquer outra que seja praticada por longos períodos, há tanto benefícios quanto cuidados que são necessários.

Os benefícios. Em primeiro lugar e para deixar claro: a prática de esportes pelo videogame pode, sim, trazer vantagens físicas e mentais. Acabamos de sair de um período pandêmico e esta foi uma modalidade que permitiu interação social de uma maneira segura em relação à Covid-19.

Outra vantagem é que os esportes virtuais podem ser jogados por todos, portanto, é uma forma de entretenimento que pode unir diferentes gerações de uma mesma família, individualmente ou em equipe. Os esportes também podem melhorar habilidades motoras, como reflexos, precisão e velocidade de movimentos. E o que falar dos jogos que têm como princípio os movimentos (sim, estou falando daqueles de dança)? Podem ajudar no ganho de flexibilidade, resistência, coordenação e ritmo. Por último, temos também o aumento da capacidade de agir rapidamente, de ter reflexos.



Definitivamente, eSports e sedentarismo estão longe de serem sinônimos; vamos tratar deles trazendo os cuidados que exigem.

Em primeiro lugar, atletas virtuais passam muitas horas sentados em frente a uma tela em busca de melhores resultados. Quanto maior a dedicação, maior o tempo necessário. Este hábito em si não é muito saudável é uma escolha que não é muito vantajosa do ponto de vista da saúde. Por isso, é preciso balancear: ter ao longo do dia uma pausa da tela para descansar a visão, um intervalo para socializar e falar de temas diversos para descansar a mente e para a prática da atividade física, com gasto ativo de calorias associado a exercícios.



Aqui cabe fazer uma distinção entre o consumo de energia que diferentes atividades exigem; a cognição, o raciocínio, gasta energia pelo estímulo da fosforilação cerebral. Já as atividades físicas que de fato exercitem os músculos e aumentem a frequência cardíaca, trabalhando com o desempenho, promovem a queima de calorias.

O que comer? E aí estabelece-se qual é a relação entre o consumo de carboidratos e o desempenho cerebral. Um trabalho publicado no American Journal Clinical Nutrition pegou dois grupos de pessoas; um deles fazia uma dieta balanceada com até 46% de carboidrato e o outro grupo fazia restrição de carboidrato. Observou-se que as pessoas com privação de carboidratos tinham resultados mais lentos de raciocínio lógico, de movimentação. Na sequência, cerca de 100 pessoas do grupo de privação receberam uma dieta com carboidrato. Repetindo o teste, eles se tornaram muito mais rápidos do que quando consumiram baixas quantidades deste grupo de nutrientes.



O fato é que o carboidrato é extremamente importante para a fosforilação cerebral, para o desenvolvimento de raciocínio, para as condições dos estímulos elétricos na rede neural. Então não é saudável fazer privação de carboidrato, mas o ideal é que cerca de 55% do prato seja de carboidratos, seguido de 30% de proteínas e o só  o restante de gorduras.

Então basta consumir carboidratos desenfreadamente para que alguém torne-se um gênio? Claro que não. Brincadeiras à parte, o que é certo é que ter uma fonte regular de carboidrato aumenta a probabilidade de ter melhores resultados cognitivos. De preferência os integrais, que têm menos absorção e evitando o excesso de açúcar (se possível, se abster ). Em relação a bebidas, que sejam de origem natural, que seja de açúcar da fruta, a frutose, e não adocicado. Evitar o refrigerante em demasia, se possível tentar nem fazer a ingestão de refrigerantes. E para quem gosta de bebidas alcoólicas, a má notícia é que elas prejudicam o alto rendimento cognitivo.

O cérebro precisa ser reiniciado. Outro elemento importante está também em casa: a cama. O sono é fundamental para o cérebro, para aumentar seu rendimento, para aumentar a capacidade de absorver aquilo que você aprendeu ao longo do dia, sedimentar a informação ali dentro, e até mesmo dar o descanso para a célula cerebral. Ao atrapalhar esse sono o seu rendimento inevitavelmente vai cair. E aí falando especificamente de quem joga videogames, sabemos que a luz branca atrapalha a formação da melatonina, altera o cortisol, gerando o que é conhecido como o hormônio do estresse e também uma série de alterações; desde redução de testosterona, aumento de insulina, piora das funções orgânicas, a disposição e, consequentemente, alterando o peso porque você começa a aumentar o índice de gordura dentro do organismo simplesmente porque você tem um cortisol extremamente elevado por não conseguir dormir.

Assim como acontece com atletas de alto rendimento físico, quando se fala de descanso, se fala de horas de sono adequado e para esse tipo de atividade não é diferente. Para usar um termo da área, é como dar um reset, um reboot, no cérebro para começar a jogar a partida novamente.

Evitando lesões. Falando de cuidados bem específicos da atividade em si dos jogos, vamos à prevenção da tendinite e da LER, a famosa lesão por esforço repetitivo. A realização de alongamentos antes, durante e depois (sim, do mesmo jeito que fazemos antes de exercícios como corrida, natação etc) é primordial. Outra dica é fazer pausas periódicas para se locomover, levantar e se alongar. E para fortalecer as musculaturas e ligamentos, através de exercícios resistidos como musculação, banda elástica, ioga, calistenia. São opções para fortalecer a musculatura e os ligamentos e reduzir a lesão.

Equipamentos precisam ser adequados. Assim como precisamos de tênis com amortecimento para correr, capacetes para o ciclismo, os esportes virtuais não estão distantes disso. É preciso observar a ergonomia correta, com mouses adaptados ao formato da mão, altura correta da mesa, assentos adequados para essa prática. O ajuste de cadeira tem que ser baseado na composição corpórea, no peso, na altura de cada um (e reajustado se for uma compartilhada). Faço questão de fazer esse alerta sobre a ergonomia.

E é extremamente importante levantar para realizar pequenos deslocamentos periodicamente. A título de comparação, basta lembrar de outras situações que passamos muito tempo sentados acarretando risco. Por exemplo, viagens de avião de longa duração aumentam o risco de trombose por conta da falta de circulação adequada nas pernas que é a estase sanguínea. Isso acontece também com quem fica trabalhando sentado por um longo período. Alongamento é fundamental, levantar daquela cadeira, se espreguiçar, mudar de ambiente, ir ao banheiro, são pequenas atitudes que previnem algum dano pelo fato de ficar muito tempo sentado.

Para proteger a visão. Quero trazer aqui também uma avaliação sobre a utilização excessiva de telas. Isso faz com que os olhos mantenham uma estrutura chamada músculo auxiliar contraído. O grande problema é que ele se mantém assim constantemente e a longo prazo isso pode dar a síndrome do uso do computador, que está associada a fadiga, coceira e dores oculares. Em média uma pessoa pisca de quarenta a cinquenta vezes por minuto, mas quando estamos prestando atenção a uma tela essa média fica em torno de dez, porque mantemos o olhar fixado. Isso aumenta o ressecamento. Felizmente existem colírios lubrificantes, inclusive os mais recentes lançamentos podem vir sem adição de conservantes, o que é muito melhor.

Outra medida que se pode fazer é a cada vinte minutos olhar para o horizonte por exemplo, ficar em frente à janela e olhar a paisagem, isso é como um “alongamento” para os olhos. E a cada hora deve-se levantar, mudar de ambiente, para um outro tipo de iluminação para ter um repouso, um descanso para os olhos. E o ideal é que se utilize os dispositivos com a luz acesa, ou com iluminação natural do dia. Sabia disso? Pode-se pensar que apagar a luz ou cerrar as cortinas facilita a visualização do que está na tela, mas o grande problema de estar em um ambiente escuro e ligar uma televisão é que a reação do organismo é dilatar a pupila, permitindo maior penetração daquela luz azul de tablets, celulares e televisão, o que pode causar problemas na retina.

Cuidando dos ouvidos. O uso prolongado de fones pode promover danos na célula auricular. Quanto maior o tempo em grande intensidade, maior o dano. Então  o recomendável é ficar de forma contínua de trinta a sessenta minutos no máximo, com o volume moderado. Todos os fones têm ali suas particularidades, os intra-auriculares, aqueles que são colocados dentro do ouvido, são os que pedem mais cuidado, como não pressionar com grande força para não causar dano estrutural, checar se aquela borrachinha da ponta não está suja ou úmida, pois isso pode promover infecções e lesões do pavilhão auricular. Os auriculares ou supra-auriculares, é importante observar a condição da borracha, se não está furada, se não está vazando o áudio, o que faz com que você aumente o volume do som. Como qualquer situação, aliás, recomendo fortemente manter consultas periódicas ao otorrinolaringologista, uma vez que a queda de audição pode passar despercebida para quem passa por ela – mas não para quem está ao lado.

Rotina de atleta. Dito tudo isso, a conclusão óbvia é que os esportes virtuais exigem tantos cuidados e preparo quanto o de um atleta. O fato é que a prática da atividade física regular trará diversos benefícios, mas é essencial conhecer-se em primeiro lugar. Buscar a prática da atividade física regular, a atenção aos alimentos, praticar o comer consciente, evitando se alimentar na frente da tela, o que pode distrair a percepção do sabor dos alimentos adequados e estimula a comer muito mais do que um ambiente calmo olhando para a refeição, percebendo as mastigações. Estamos aqui pensando nos impactos não do ano que vem, mas sim do que virá daqui dez, quinze, vinte anos.

Quem mantém essa rotina de vida precisa ter a disciplina de um atleta, cuidando do físico, da mente, da saúde, da alimentação porque é esse conjunto que o tornará um atleta de alto rendimento em qualquer tipo de modalidade praticada.

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