Imerso nos encontros das culturas afro-brasileiras e também nas influências dos ensinamentos da filosofia do yoga, o cantor e compositor brasileiro Alvaro Lancellotti lapidou suas experiências nos terreiros para criar o seu novo trabalho de estúdio, Arruda, Alfazema e Guiné. O projeto une o universo espiritual e musical como peças fundamentais para sua concepção, mas sem se prender a uma estética fixa. A sonoridade é embalada pelas cantigas de terreiros, com fortes referências ao disco Krishnanda, tropicália experimental de Pedro Santos em seu único trabalho de estúdio, lançado em 1968, resultando em uma safra de doze canções diversamente ligadas à espiritualidade afro-brasileira. O artista joga luz a temática ao passo em que apresenta novos sons guiados pela espontaneidade e contemporaneidade. Arruda, Alfazema e Guiné chega às plataformas de streaming no dia 04 de outubro, coroando uma sequência de lançamentos de dois singles pelo selo americano Amor in Sound. Ouça aqui.
Com os singles apresentados previamente, Maneira de Ver e A Calma – este em uma especial colaboração com Mateus Aleluia –, Alvaro Lancellotti declarou em formato de canções sua admiração pela história do conjunto musical Os Tincoãs. O primeiro single, que marcou a estreia de sua parceria com o selo Amor in Sound, em julho, trouxe uma reflexão sobre uma forma de existir e estar na vida, que surgiu de forma involuntária, depois do repertório do álbum já estar definido. A faixa foi composta enquanto Alvaro estava a caminho do estúdio para começar a gravar as bases do disco, período em que produzia também o espetáculo do projeto “Pra Gira Girar”, que celebra a obra d’Os Tincoãs. O grupo brasileiro formado nos anos 60, trazia em sua formação original o Seu Mateus, como o músico é carinhosamente conhecido, o qual foi peça central do segundo single, A Calma, última canção recém-apresentada. “Tê-lo cantando comigo no meu disco é um presente que vou levar pra sempre”, afirma Alvaro.

A latente inspiração de Alvaro ao longo da feição do disco chegou a dividir espaço com uma seleta lista de outros artistas. Canções como As Folhas Secas do Pajé, Templo de Luz, Eru, Poço Negro e Abre Caminho integram a tracklist do disco como ferramentas de enaltecimento de referências na Umbanda. O músico brasileiro mergulhou em álbuns como Krishnanda, tropicália experimental de Pedro Santos em seu único trabalho de estúdio, lançado em 1968: “Este foi um dos álbuns que mais escutei em vinil nos últimos tempos. Toda a sua sonoridade, os arranjos e a instrumentação serviram de referência para Arruda, Alfazema e Guiné”, comenta Lancellotti. Outros discos como Terreiros e Atabaques (1957), de J. B. de Carvalho; Candomblé (1969), de Joãozinho da Goméia; e Heitor dos Prazeres e sua Gente (1955) de Heitor dos Prazeres também foram peças essenciais para a composição de Arruda, Alfazema e Guiné. O cantor e compositor estadunidense Bill Withers – voz aveludada de faixas atemporais como “Lean on Me” e “Ain’t No Sunshine” –, também compõe a lista de referências, junto da primeira parte da discografia de Jorge Ben. “É dentro dessa cadência que estão faixas como ‘Diambas e dendê’ e o próprio single ‘Maneira de Ver'”, completa o artista.
Os princípios anti-inflamatórios e sedativos das plantas Arruda, Alfazema e Guiné – que nomeiam o disco – são impressos nas canções por meio dos arranjos cuidadosamente delineados. “A busca que guiou todo o processo de criação foi pela liberdade, sobre a tentativa de trazer espontaneidade, deixando fluir principalmente a contemporaneidade de todos que estão envolvidos no trabalho”, explica Alvaro. A tracklist ainda traz as músicas Canção de Paz, O Canto Lá de Pedra, De Luanda e Aruanda e Ando de Bando, que completam o álbum apresentado pela Amor in Sound – novo selo liderado por Mario Caldato Jr. (que também assina a co-produção do disco) e Samantha Caldato, com o objetivo de lançar projetos cuidadosamente selecionados que ressoam com significado sincero. “Pode dizer que a interferência de Mário na co-produção traz para o disco uma contemporaneidade singular. O uso que ele faz dos efeitos ao longo do projeto chegam como um reflexo dessas mil interpretações que podemos ter sobre a concepção de terreiro”, finaliza Alvaro.
TRACKLIST
1. Abre Caminho
2. A Calma
3. Maneira de Ver
4. Canção de Paz
5. As Folhas Secas do Pajé
6. Templo de Luz
7. O Canto Lá de Pedra
8. Eru
9. Diambas e Dende
10. Poço Negro
11. De Luanda e Aruanda
12. Ando de Bando
